A durabilidade das baterias ainda é uma das principais dúvidas de quem pensa em comprar um carro elétrico. Afinal, depois de vários anos de uso, quanto da autonomia original permanece disponível?
Segundo o engenheiro Ricardo Kenzo, do Comitê de Veículos Elétricos e Híbridos da SAE Brasil, a maior parte dos carros elétricos modernos tende a preservar entre 70% e 90% da capacidade original da bateria após oito anos, considerando condições normais de utilização. Esse período corresponde, em muitos casos, a uma quilometragem entre 160 mil e 300 mil quilômetros.
Isso significa que um veículo que tinha autonomia de 400 km quando novo, por exemplo, poderia chegar aos oito anos com uma capacidade equivalente a aproximadamente 280 a 360 km, dependendo das condições de uso e da tecnologia empregada na bateria.
Não existe uma perda fixa
A degradação não acontece da mesma maneira em todos os veículos. Entre os fatores que influenciam a durabilidade estão a química das células, o sistema de gerenciamento térmico (BMS), o padrão de utilização e a frequência das recargas rápidas.
A exposição prolongada a temperaturas elevadas também pode acelerar o desgaste das células. Outro fator importante é manter o veículo constantemente com a bateria totalmente carregada ou deixar o nível de carga muito baixo por períodos prolongados.
Em um carro com aproximadamente 100 mil quilômetros rodados, a reportagem aponta que uma redução de 10% a 20% da capacidade original pode ser perceptível em muitos casos.
Recarga rápida pode acelerar o desgaste
O tipo de carregamento utilizado pelo proprietário também interfere na vida útil da bateria.
Um levantamento da Geotab com mais de 22,7 mil carros elétricos de 21 modelos identificou uma degradação média anual de aproximadamente 2,3%. Nos veículos que utilizam frequentemente carregadores rápidos em corrente contínua acima de 100 kW, a taxa chegou a cerca de 3% ao ano. Já aqueles carregados predominantemente em corrente alternada apresentaram perda média de aproximadamente 1,5% ao ano.
O estudo também apontou que temperaturas elevadas podem acrescentar cerca de 0,4 ponto percentual à degradação anual das baterias.
Garantia de oito anos não significa fim da bateria
É comum que as fabricantes ofereçam oito anos de garantia para o conjunto de baterias. Isso, porém, não significa que o componente precise ser substituído ao completar esse período.
Na prática, a bateria continua funcionando depois do fim da garantia, mas com capacidade reduzida. A tecnologia atual permite que muitos conjuntos mantenham uma parcela significativa da capacidade original por mais de uma década.
Um exemplo citado anteriormente pela própria Quatro Rodas é o de um BYD eT3 que percorreu cerca de 300 mil quilômetros e apresentou redução de aproximadamente 16% na capacidade da bateria, passando de uma autonomia de 250 km quando novo para cerca de 210 km.
Como preservar a bateria
Para reduzir a degradação ao longo dos anos, alguns cuidados podem ajudar:
- Evitar o uso constante de carregadores rápidos DC de alta potência;
- Não manter a bateria em 100% por longos períodos sem necessidade;
- Evitar deixar o veículo com carga muito baixa por períodos prolongados;
- Dar preferência à recarga em corrente alternada quando ela for suficiente para a rotina;
- Evitar exposição prolongada a temperaturas muito elevadas;
- Utilizar corretamente o sistema de gerenciamento térmico do veículo.
A quilometragem, por si só, não determina a saúde da bateria. O modo como o veículo é carregado e utilizado pode ter influência significativa na velocidade de degradação.
E quando a bateria perde muita capacidade?
A perda de capacidade não significa necessariamente que o carro deixou de ser utilizável. Em alguns casos, é possível realizar diagnósticos do conjunto e identificar quais módulos ou células apresentam maior desgaste.
Dependendo da tecnologia utilizada, também existem possibilidades de reparo, reorganização ou substituição de módulos. A viabilidade, entretanto, depende do projeto específico de cada bateria e deve ser avaliada por profissionais especializados.
Assim, para quem pretende comprar um elétrico seminovo, avaliar o estado de saúde da bateria (SOH) pode ser tão importante quanto verificar quilometragem, histórico de manutenção e estado geral do veículo.