O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) deve aprovar nesta semana o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, passando dos atuais 30% para 32%. Caso confirmada, a medida representará o segundo aumento consecutivo em pouco mais de um ano, após a elevação de 27% para 30%, implementada em 2025.
A decisão tem potencial para gerar impactos não apenas no setor de combustíveis, mas também na agricultura, na produção animal e no bolso do consumidor.
Mais etanol, mais demanda por milho
O aumento da mistura amplia diretamente a necessidade de produção de etanol no país. E uma parte cada vez maior desse combustível vem do milho.
Atualmente, o etanol de milho já representa cerca de 25% da produção nacional, consolidando-se como uma alternativa importante ao tradicional etanol de cana-de-açúcar.
Com maior demanda pelas usinas, cresce também o interesse pela compra do grão, fortalecendo os preços pagos aos produtores rurais. Em regiões como Sorriso (MT), um dos maiores polos agrícolas do Brasil, a saca do milho já é negociada entre R$ 45 e R$ 46, valor significativamente superior ao registrado antes da expansão das usinas de etanol.
Produção animal pode sentir os efeitos
Se para os agricultores o cenário tende a ser positivo, para os setores de proteína animal a situação exige atenção.
O milho é um dos principais componentes da ração utilizada na criação de aves, suínos e bovinos. Quando o preço do grão sobe, os custos de produção também aumentam.
Por outro lado, a indústria do etanol de milho gera um importante coproduto chamado DDG (grãos secos de destilaria), amplamente utilizado na alimentação animal. Esse material ajuda a compensar parte da pressão sobre os custos da ração, reduzindo os impactos para produtores de proteína.
Governo aposta em combustível mais barato
Do lado do consumidor, a expectativa do governo é que o aumento da participação do etanol contribua para reduzir o preço final da gasolina.
Quando a mistura passou de 27% para 30%, estimativas oficiais indicavam uma possível redução de até R$ 0,20 por litro nos postos.
Entretanto, especialistas ressaltam que o resultado final dependerá de diversos fatores, como o comportamento dos preços internacionais do petróleo, a oferta de etanol, os custos logísticos e o desempenho da safra agrícola.
Reflexos podem chegar aos alimentos
Embora a gasolina possa apresentar redução nos preços, o fortalecimento da demanda por milho pode gerar reflexos indiretos sobre a alimentação.
Caso os custos da ração aumentem significativamente, parte dessa pressão pode ser repassada ao consumidor por meio dos preços de produtos como carne de frango, carne suína e ovos.
Ainda assim, o impacto dependerá do equilíbrio entre produção agrícola, disponibilidade de DDG e expansão das novas plantas de etanol de milho em operação no país.
Decisão movimenta vários setores
A possível adoção da mistura de 32% de etanol reforça a estratégia brasileira de ampliar o uso de combustíveis renováveis e reduzir a dependência de derivados fósseis.
Ao mesmo tempo, a medida evidencia como uma única decisão no setor energético pode influenciar diretamente produtores rurais, indústrias, criadores de animais e consumidores.
O verdadeiro impacto da mudança deverá ser acompanhado nos próximos meses, conforme o mercado absorver os efeitos da nova política de combustíveis.