Comprar um carro 0 km e ganhar outro de graça parece uma daquelas promoções impossíveis de acreditar. Mas isso realmente aconteceu no Brasil, em abril de 1990, quando concessionárias enfrentavam uma das piores crises de vendas de sua história após o início do Plano Collor.
O cenário era resultado direto das medidas econômicas anunciadas pelo então presidente Fernando Collor de Mello. O chamado Plano Brasil Novo, conhecido como Plano Collor, restringiu fortemente a circulação de dinheiro e congelou preços na tentativa de conter a hiperinflação.
Com grande parte dos recursos dos brasileiros retida nos bancos, o mercado automotivo praticamente parou. Nas duas primeiras semanas após o anúncio do plano, o movimento nas concessionárias chegou perto de zero.
Descontos de até 25% não eram suficientes
Sem compradores, as concessionárias começaram a reduzir os preços dos veículos. Algumas chegaram a oferecer descontos de até 25%, mas nem mesmo as condições agressivas eram suficientes para movimentar os estoques.
O problema era simples: os consumidores não tinham dinheiro disponível para comprar carros, enquanto as lojas precisavam desesperadamente transformar os veículos parados em dinheiro para manter o próprio fluxo de caixa.
Em abril, as estratégias ficaram ainda mais ousadas. Algumas revendas passaram a oferecer parcelamentos de 50% do valor do veículo em até 4, 5, 6 ou até 10 vezes sem juros.
As vendas melhoraram, mas principalmente entre os modelos mais baratos.
De viagens internacionais a eletrodomésticos
Com os carros continuando nos pátios, as concessionárias começaram a apostar em brindes cada vez mais chamativos.
Na Volkswagen Caraigá, por exemplo, quem comprasse um Santana Executivo poderia receber duas passagens para o Texas, nos Estados Unidos, além de chapéu, bota de cowboy, lava-louças e churrasqueira elétrica.
Já o comprador de um Gol GTI ganhava uma semana com tudo pago em São Francisco ou Nova York. Para quem levasse um Gol GTS, o brinde era um mini-buggy, enquanto o comprador de um Voyage Plus a álcool recebia um Walk Machine.
Na Vecap, a compra de determinados modelos, como GTS, Santana e Quantum Sport, dava direito a 15 dias de estadia no Canadá e nos Estados Unidos. Já o Voyage Plus vinha acompanhado de uma televisão com videocassete.
A Chevrolet também entrou na disputa. Na Deltacar, um Chevette 0 km dava direito a uma viagem de três dias ao Paraguai. Quem comprasse um Monza Classic ou Diplomata ganhava uma viagem de seis dias para Nova York. No caso da Brasinca Andaluz, o prêmio chegava a 12 dias em Paris.
Quando comprar um carro dava direito a outro
Na segunda quinzena de abril, as promoções chegaram ao extremo.
Algumas concessionárias começaram a anunciar o modelo “pague 1, leve 2”, algo que hoje parece completamente fora da realidade do mercado automotivo.
Na Ford Santo Amaro, quem comprasse um caminhão Cargo poderia levar uma Pampa 1.8. Já um Escort XR3 conversível vinha acompanhado de uma Honda 250, enquanto o comprador de um Del Rey Ghia recebia uma Honda 125.
Na Volkswagen Abolição, a compra de um caminhão VW 16.210 ou 14.210 dava direito a um Gol GTS.
E não eram apenas carros. Na Mesbla Motos, quem comprasse uma CBX 750 Indy levava uma CBR 450 SR. Na SP Moto, o prêmio era uma Volkswagen Saveiro.
Promoções duraram poucas semanas
A estratégia, porém, teve vida curta. As ofertas de “compre 1, leve 2” terminaram já no começo de maio de 1990.
Os pátios das concessionárias começaram a esvaziar depois que o governo liberou vendas por consórcios contemplados e outras formas de negociação.
Outro fator também ajudou a movimentar o mercado: com as aplicações financeiras afetadas pelas medidas econômicas e rendendo pouco, muitos brasileiros passaram a utilizar seus recursos disponíveis para comprar veículos 0 km.
Assim, uma combinação de hiperinflação, dinheiro retido nos bancos, queda brusca nas vendas e estoques parados criou um dos episódios mais curiosos da história do mercado automotivo brasileiro.
Por algumas semanas, comprar um carro novo no Brasil realmente poderia significar sair da concessionária com dois veículos em vez de um.