Quem compra um carro novo atualmente costuma passar anos realizando apenas as revisões programadas. Há seis décadas, porém, a realidade era completamente diferente. Nos anos 1960, a manutenção fazia parte da rotina do proprietário e incluía trocas de óleo em intervalos curtos, lubrificação do chassi, limpeza constante de componentes e até reparos na carroceria logo nos primeiros quilômetros.
Modelos comercializados naquela época exigiam uma atenção muito maior devido às limitações dos materiais, dos lubrificantes e dos processos de fabricação disponíveis. Além disso, era comum que o próprio motorista realizasse pequenos reparos e regulagens para manter o veículo funcionando corretamente.
Um dos exemplos era o Volkswagen Fusca "Pé de Boi". Equipado com motor 1.200 boxer de 36 cv, o modelo precisava trocar o óleo a cada 2.500 quilômetros em condições normais. Em uso severo, o intervalo era ainda menor.
A lubrificação do chassi também fazia parte da rotina. Em veículos com carroceria separada do chassi, diversos pontos da suspensão e da estrutura precisavam receber graxa periodicamente para reduzir o desgaste e impedir a entrada de poeira e água.
Outros modelos exigiam cuidados ainda mais rigorosos. O Toyota Bandeirante, por exemplo, recomendava reparos na carroceria logo nos primeiros 1.000 quilômetros por causa das vibrações do motor, além da troca de todos os fluidos após apenas 500 quilômetros durante a fase inicial de uso.
Na época, praticamente todos os lubrificantes eram minerais e tinham vida útil bem inferior aos atuais. Por isso, era comum que proprietários precisassem trocar também os óleos do câmbio e do diferencial em intervalos relativamente curtos.
O DKW Belcar, equipado com motor dois-tempos, representava outro caso curioso. O modelo exigia óleo específico para lubrificação do motor, que inicialmente precisava ser misturado manualmente à gasolina durante o abastecimento. Posteriormente, o sistema Lubrimat passou a realizar essa mistura automaticamente.
Conhecimento básico de mecânica também era praticamente obrigatório. Muitos automóveis vinham acompanhados de kits de ferramentas para que o motorista pudesse reapertar componentes, realizar ajustes no carburador ou substituir peças como platinados e velas de ignição.
Os freios também exigiam atenção constante. Até o fim da década de 1960, os freios a tambor dominavam o mercado nacional e sofriam com o chamado fading, perda de eficiência provocada pelo superaquecimento em uso intenso. Os freios a disco ainda eram raridade nos carros produzidos no Brasil.
Outro problema recorrente era a ferrugem. Mesmo veículos recém-saídos da fábrica podiam apresentar pontos de corrosão poucos anos depois, consequência da tecnologia de proteção anticorrosiva bastante inferior à utilizada atualmente.
Foi somente no fim da década de 1960 que alguns modelos começaram a aproximar a manutenção do padrão conhecido hoje. O Ford Galaxie 500, por exemplo, trouxe intervalos maiores entre as revisões e um conjunto mecânico mais robusto, reduzindo significativamente a frequência das intervenções.
Comparando com os automóveis atuais, fica evidente a evolução da indústria. Hoje, muitos modelos exigem apenas revisões a cada 10 mil ou até 20 mil quilômetros, utilizam lubrificantes sintéticos de longa duração, contam com componentes muito mais resistentes e praticamente eliminaram tarefas como engraxar o chassi ou realizar regulagens periódicas do motor.